Parte 1.
-“Sua idiota, porque é que te meteste à frente?!” – disse Hallvard
-“Foge enquanto podes Hallvard… eu encontro-te… e no fim… seremos apenas nós os dois”- foi tudo o que consegui dizer antes de tudo ficar negro e eu tombar no chão.
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Será que a morte era isto? Não, não podia ser tão dolorosa. Não era suposto ser assim.
O som suave de uma flauta desabrochou no silêncio, sobrepondo-se à dor que sentia e distraindo-me. Aquele som acalmava-me.
Abri os olhos para um espaço cercado de flores… calmo, sem dor, sofrimento, morte…
Descobri-me deitada sobre as costas da minha águia. A companheira que me tinha ajudado a superar os momentos mais difíceis. Ela aparecia sempre que eu estava em apuros.
A águia estava calma, adormecida talvez…
-“Kelda…” – esta voz... Sentando-me no dorso da minha águia, olhei em redor até os encontrar.
-“Pequena…” – os meus avós estavam iguais à última vez que os tinha visto, à muitos anos atrás. O branco imaculado dos seus cabelos, impostos como condição para eu não os reconhecer.
-“Avó… onde é que eu estou? Estou morta?”-
-“Não, querida… mergulhas-te num esquecimento para te puderes curar” – disse Pequena – “O que o teu irmão fez… por pouco não te matou. A bola de energia com que o Hallvard tencionava atingir Edwin, era bastante poderosa.”
-“Então… porque é que eu não morri?”-
-“Erebus reduziu a energia que a bola continha. A parte que te atingiu não te matou, mas foi o suficiente para ficares cheia de dores e inconsciente por algum tempo.” – Afirmou Lobo Cinzento.
Eu não queria volta a perdê-los; queria ficar ali, com eles e com a minha águia; não queria voltar para o meu “mundo”… não queria o destino que me foi imposto. Depois de destruir o feiticeiro Sigarr e ter salvo o nosso pai, Hallvard ficou ainda mais cego de vingança. Segundo o meu irmão, eu tinha destruído a única pessoa que alguma vez se importou com ele… e que tornou o seu sonho realidade…ter poder suficiente para sujeitar os Homens à sua mercê.
Talvez Pequena tivesse razão e a bola de energia fosse direccionada para o nosso pai… mas eu não partilhava o mesmo optimismo. Hallvard não aguentou perder o seu mestre, não aguentou ver o seu poder ameaçado por um “inferior” como ele considerava Erebus. Não aguentava que a sua irmãzinha estivesse contra ele.
Pequena, percebendo a direcção dos meus pensamentos disse:
-“Kelda… isto é uma ilusão… a tua missão ainda não acabou.”-
-“Eu não quero regressar...” – respondi agarrando-me à minha águia, com medo que ela fosse desaparecer.
-“Kelda é a tua missão… além disso existem muitas pessoas que precisam de ti.” – disse o meu avô.
-“O que vai acontecer quando eu acordar?”
-“Isso depende de ti, querida. Uma decisora deve decidir.” – disse Pequena
-“E se eu não decidir bem… se eu arruinar tudo…”-
-“Kelda… não estás sozinha…Acredita em ti e vais vencer.”- afirmou Lobo Cinzento
Eles começaram a desvanecer à medida que os meus olhos ficavam mais sonolentos. A última coisa que vi foi o sorriso dos meus avós.
***
-“Kelda…”
As dores eram horríveis. Cada fibra do meu corpo doía. O simples facto de respirar equivalia a agulhas espetadas pela pele.
Sentia leves pressões na minha testa, sentia que alguém me envolvia a mão, sentia…calor.
-“Kelda… acorda, amor” – eu conhecia esta voz; Lysander. Lysander estava ao pé de mim. E eu tinha tanta coisa para lhe explicar.
-“Ly…” – eu tentei pronunciar o seu nome, mas não conseguia.
-“Shhh… vais ficar bem.” – disse ele, beijando-me o rosto.
-“Ly… dói…” –
-“Eu sei, menina-feiticeira… mas vai passar… nós vamos cuidar de ti.” – disse, apertando a minha mão.
Nós? ... Lysander não estava sozinho… havia mais alguém com ele no quarto. A minha mente não conseguia registar e decifrar quem era mas, estava a dar-me energia. O quarto cheirava a floresta, a terra, a vida…
Quem quer que fosse…estava a dar-me vida.
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